30 setembro 2009

Diploma de pai

Certamente você já viu Diploma de Mãe, desses que são vendidos em bancas de jornais, já impressos, e que só precisam ser preenchidos nos

lugares certos no Dias das Mães, para entrega àquela pessoa muito especial, no seio da qual sua atual existência começou. Não sei se vocês já viram

Diploma de Pai. Se não viram, verão agora, pois tenho um para exibir, rogando-lhes as desculpas pela falta de modéstia. Eu o ganhei no dia em que

comemoramos, a esposa e eu, 49 anos de casamento. Foi escrito por Ana-Maria, aquela mesma pessoinha com a qual este livro começou.

É um diálogo entre o escriba que vos fala e o Pai Eterno. O cenário é o céu, o ano, 1920.

Por ordem do Senhor, Pedro, o querido Pescador de Almas, porteiro perpétuo da mansão celestial, recebe aquele que seria eu e me leva à presença do Altíssimo. Acho até que a Ana-Maria estava por lá, escutando discretamente, por trás de alguma nuvem diáfana, dado que ela reproduziu fielmente a momentosa conversa.

Eis o que ela escreveu:

E como vai você, meu filho?

Vou muito bem, Senhor. Melhor agora, na Sua presença.

“— Que bom que você pensa assim. Mas, te chamei aqui porque, você sabe, você pediu para voltar e resolvi que você vai descer dia 5!

“— Dia 5?

É. Lá na Terra, tem dia, hora, meses, essas coisas... Lá existe o tempo.

“— Ah, sei...

“— Bem, você vai se chamar Hermínio Corrêa de Miranda; sua mãe, Helena, e seu pai, Reduzindo, estão te esperando com muita ansiedade. Você

vai ser o primeiro filho desse casal que está muito próximo do meu Amor.

“— Sim, Senhor.

“- Seu plano de vida já está, como é de praxe, decidido, seguindo sua prévia solicitação.

Mas, naturalmente, você terá o livre-arbítrio, ou seja, o direito de escolher outro plano, de mudar.

”- Sim, Senhor.

“— Você vai primeiro ser filho. Depois, vai ser afilhado, depois, irmão, depois aluno, e...

“- Aluno, Senhor?

“— É, aluno e tio, primo, funcionário, e assim por diante, até ser namorado, noivo e esposo, pra depois ser... PAI. Esta é a mais importante de todas as categorias citadas.

“— PAI, Senhor? Pensei que só o Senhor pudesse ser Pai.

“— Bem, digamos que sou o PAI de todos os pais.

“— Ah, sei...

“— Mas você também vai ser PAI, como disse. Você pediu três filhos; duas meninas e um menino.

“— É mesmo, Senhor?

“— É. Primeiro, é claro, tem a Inez — aquela que vai ser a eterna companheira, a mãe de seus filhos. Depois então, virão a Ana-Maria, a Marta e o Gilberto.
“— Ana-Maria, Marta e Gilberto?

“— É. Foi o que você pediu. Vão te dar muito trabalho, muitos problemas, muitas descrenças, muitos desgostos, mas algumas alegrias que compensam muito de tudo isto. É assim que os pais pensam...

“- Sei...

“— Naturalmente, que isto só vai começar a acontecer daqui a 23 anos.

“— Naturalmente, Senhor. Vinte e três anos...

“- Mas, como ia dizendo, de tudo o que você pediu pra ser, ser PAI é o mais difícil lá na Terra. E com o passar dos anos, vai ser cada vez pior.

“— Entendo, Senhor...

“- Não, meu filho, você não entende. Mas quando chegar a hora você saberá o que fazer; às vezes até com muito sacrificio, renúncia, angústia e até

revolta. Mas, com muita compreensão.

“— Senhor, me parece difícil demais. Revolta e compreensão?

“— É, realmente. Você é quem sabe. Foi o que me pediu.

“— Estou muito receoso, Senhor. Ser pai, como o Senhor... Não vou conseguir.

“— Quem sabe? Daqui a muitos anos, vamos nos encontrar de novo e assim retomaremos esta conversa...

“— Sim, Senhor... Mas, vejo dois envelopes em Suas mãos. São para mim?

“— Ah, já ia chegar lá. Vamos ver. Este aqui, contém minhas instruções para a sua vida de pai. Aqui estão as soluções para todas as situações que vai enfrentar com Ana-Maria, Marta e Gilberto. Aqui está o que lhes dizer, fazer, aconselhar, ensinar, repreender, incluir, tudo. Vou instalar estas instruções no computador do seu espírito!

“— Computa... o quê, Senhor?

“— Computador? Um dia você vai saber. Quando chegar a hora de resolver o problema com um dos rebentos, é só você chamar a memória e já virão todas as MINHAS instruções. Aqui está o programa.

“— Obrigado, Senhor, mas deve haver algum engano, aqui só há uma folha de papel em branco!

“- Não é engano não, meu filho. É que só os PAIS podem ler o que está aí.

“- Ah, entendi, Senhor. E o outro envelope? “— Este contém uma única palavra.

“— Só uma?

“— Só uma. E você só vai poder abrir este envelope no dia em que sentir necessidade de saber uma coisa muito importante.

“— Verdade, Senhor?

“-É.

“— Mas que coisa é esta? Algo relacionado com os filhos?

“— Sim. Vou explicar. Eu sei o que você pensará a respeito de seus filhos. Sei o que eles três pensarão a teu respeito. Mas você não saberá o que eles pensam a teu respeito, como pai.

“-Ah...

“— Então, no dia em que você quiser saber, abra este envelope. Se pelo menos um deles três te chamar da palavra escrita aqui, nesta folha, você terá se aproximado ainda mais de MIM, como... PAI.

“— Sim, Senhor.
“— Bem, chegou a hora. Daqui a um segundo, você não se lembrará de mais nada, por muitos e muitos anos. Vai, Hermínio. Minha bênção e boa sorte.

“— Obrigado, Senhor. Vou sentir Sua falta. Até a volta...”

(O segundo ato se passa na Terra, em 1991. O casal está comemorando 49 anos de união. Recebo de Ana-Maria, o seguinte recado: )

“— Pai, abra aquele envelope hoje. Veja se a palavra escrita pelo Senhor, não foi... AMIGO.

- Era.

* * *

Assim, este livro, que começou com Ana-Maria, termina com esta página que ela criou com o talento e a emoção de que foi generosamente dotada. Ela assinou o meu Diploma de Pai. Ele me responde a uma das perguntas que eu li nos olhos de Ana-Maria, quando, pela primeira vez, nos encontramos do lado de cá da vida. Lembram-se? Ela se perguntava assim: — Será que esse sujeito vai ser um bom pai para mim? Com ele, poderei, um dia, me apresentar lá em cima, como aquele trabalhador de que falou Paulo, que não se envergonhará do trabalho que realizou por aqui, na Terra.

Fim