20 julho 2008



O espírito que conhecemos como André Luiz, em sua última encarnação foi um médico brasileiro residente no Rio de Janeiro. Com bons conhecimentos científicos e grande capacidade de observação, foi-lhe permitido relatar, através do médium Francisco Cândido Xavier, suas experiências como desencarnado. Desejando manter o anonimato - possivelmente respeitando parentes ainda encarnados - quando questionado sobre seu nome, respondeu adotando o nome de um dos irmãos de Chico Xavier.

Alguns espíritas, talvez mais levados pela curiosidade do que por fins práticos, já criaram algunas hipóteses sobre a identificação do médico carioca desencarnado, mas são apenas especulações sem maior solidez ou confirmação pelo próprio André Luiz. O primeiro livro de André Luiz é de 1943. Neste livro ele descreve sua chegada ao plano espiritual, iniciando pelo período de pertubação imediato após a morte, seguindo pelo seu restabelecimento e primeiras atividades, até o momento em que se torna "cidadão" de "Nosso Lar", colônia espiritual que dá nome ao livro.

Seguem-se outras obras que descrevem experiências e estudos do autor no plano espiritual, que ao longo da obra vão cada vez mais sendo direcionados a tarefa de esclarecimento dos encarnados sobre as realidades do plano espiritual, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier (as datas são dos prefácios de Emmanuel):


  • 26 de fevereiro de 1944 - Os Mensageiros, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 13 de maio de 1945 - Missionários da Luz, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 25 de março de 1946 - Obreiros da Vida Eterna, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 25 de março de 1947 - No Mundo Maior, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 18 de junho de 1947 - Agenda Cristã, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 22 de fevereiro de 1949 - Libertação, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 23 de janeiro de 1954 - Entre o Céu e a Terra, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 3 de outubro de 1954 - Nos Domínios da Mediunidade, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 1 de janeiro de 1957 - Ação e Reação, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 21 de julho de 1958 - Evolução em dois Mundos, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 6 de agosto de 1959 - Mecanismos da Mediunidade, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 17 de janeiro de 1960 - Conduta Espírita, médium Waldo Vieira, FEB
  • 4 de julho de 1963 - Sexo e Destino, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 2 de janeiro de 1964 - Desobsessão, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 18 de abril de 1968 - E a Vida Continua, médium Francisco Cândido Xavier, FEB
  • 21 de maio de 1975 - Respostas da Vida, Médium Francisco Cândido Xavier, IDEAL
Além destes livros, André Luiz, também participou de obras conjuntas com outros autores espirituais, principalmente Emmanuel. A relação abaixo, indica algumas destas obras (as datas são dos prefácios):
  • 9 de outubro de 1961, O Espírito da Verdade, Autores Diversos, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 2 de julho de 1963, Opinião Espírita, Emmanuel e André Luiz, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 11 de fevereiro de 1965, Estude e Viva, Emmanuel e André Luiz, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 15 de maio de 1965, Entre Irmãos de Outras Terras, Autores Diversos, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, FEB
  • 3 de junho de 1972, Mãos Marcadas, Autores Diversos, médiun Francisco Cândido Xavier, IDE
  • 3 de outubro de 1973, Astronautas do Além, Autores Diversos, médium Francisco Cândido Xavier, J. Herculano Pires, GEEM
  • 15 de maio de 1983, Os Dois Maiores Amores, Autores Diversos, médium Francisco Cândido Xavier, GEEM
  • 6 de agosto de 1987, Cura, Autores Diversos, médium Francisco Cândido Xavier, G.E.E.M
  • 17 de janeiro de 1989, Doutrina e Aplicação, Autores Diversos, médium Francisco Cândido Xavier, CEU

A obra medíunica de André Luiz teve - e ainda tem - uma influência considerável sobre o movimento espírita. Suas descrições do plano espiritual - tornando mais preciso e detalhado nosso conhecimento do mesmo - estabeleceram novo patamar de compreensão da vida espiritual, também incentivaram a criação de instituições espíritas devotadas as atividades assistências e grupos de estudos inumeráveis. Por exemplo, temos as "Casas André Luiz" e o "Grupo Espírita Nosso Lar", que se dedicam ao atendimento de crianças deficientes; a "Casa Transitória Fabiano de Cristo", que se dedica ao atendimento de gestantes carentes; o grupo "Os Mensageiros" que se dedica a distribuição gratuita de mensagens espíritas; a própria Associação Médico-Espírita, que tem aprofundado o estudo das obras mediúnicas de André Luiz e suas relações com a prática médica.


É interessante observar que o primeiro livro de André Luiz causou grande impacto pela novidade de suas informações, alguns chegaram a contestar suas descrições de uma vida espiritual muito semelhante a que levamos na Terra, mas o acúmulo de evidências - deste mensagens descrevendo de modo fragmentário a vida espiritual, até obras completas de outros espíritos, por médiuns como Yvonne A. Pereira - provaram sua veracidade. O mais curioso é que descrições semelhantes já existiam desde os primeiros tempos do "Modern Spiritualism" - por exemplo, as que foram registradas por Andrew Jackson Davis (nasc. 1826 - desenc. 1910) - mas tinham caido no esquecimento.


Bibliografia: As Vidas de Chico Xavier, Marcel Souto Maior, Ed. Rocco; Chico Xavier - Mensageiro de Deus, Coleção Luzes do Caminho, Editora Escala; Ciclo de Estudos Sobre a Obra Evolução em Dois Mundos - Boletim Médico-Espírita número 5, Dr. Paulo Bearzoti, AME; História do Espiritismo, Arthur Connan Doyle, trad. Julio de Abreu Filho, Editora Pensamento; Lindos Casos de Francisco Cândido Xavier, Ramiro Gama, LAKE; Obras diversas de André Luiz;

14 julho 2008

Há muitas moradas

Há muitas moradas
na casa do Pai,
e a Terra é uma delas
onde agora eu estou.

Vivo feliz
porque sei que Jesus
desde o princípio
o nosso mundo orientou.

Há mundos primitivos,
há mundo de expiação,
há mundos felizes,
há mundo em regeneração.

São escolas onde o espírito
faz a sua evolução,
até ser puro, até ser luz,
vencer a morte e
não precisar mais da reencarnação.

Letra e música de Vilma de Macedo Souza

06 julho 2008

Allan Kardec



Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em Lyon, França, em 3 de outubro de 1804. Estudou em Yverdun (Suíça) com o célebre Johann Heinrich Pestalozzi, de quem se tornou um eminente discípulo e colaborador. Aplicou-se à propaganda do sistema de educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. Lingüista insigne, falava alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Traduziu para o alemão excertos de autores clássicos franceses, especialmente os escritos de Fénelon (François de Salignac de la Mothe).


Rivail, o educador

Fundou em Paris – com sua esposa Amélie Gabrielle Boudet – um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. Escreveu gramáticas, aritméticas, estudos pedagógicos superiores; traduziu obras inglesas e alemãs. Organizou, em sua casa, cursos gratuitos de química, física, astronomia e anatomia comparada.


Membro de várias sociedades sábias, notadamente da Academia Real de Arras, foi premiado, por concurso, em 1831, com a monografia Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época? Dentre as suas obras, destacam-se: Plano apresentado para o melhoramento da instrução pública (1828); Curso prático e teórico de aritmética (1829, segundo o método de Pestalozzi); e Gramática francesa clássica (1831).


Kardec, o codificador

Foi em 1854 que o Prof. Rivail ouviu falar das mesas girantes, fenômeno mediúnico que agitava a Europa. Em Paris, ele fez os seus primeiros estudos do Espiritismo. Aplicou à nova ciência o método da experimentação: nunca formulou teorias pré-concebidas, observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; procurava sempre a razão e a lógica dos fatos. Interrogou os Espíritos, anotou e ordenou os dados que obteve. Por isso é chamado Codificador do Espiritismo. Os autores da Doutrina são os Espíritos Superiores. A princípio, Rivail objetivava apenas sua própria instrução. Mais tarde, quando viu que tudo aquilo formava um conjunto e tomava as proporções de uma doutrina, decidiu publicar um livro, para instrução de todos. Assim, lançou O Livro dos Espíritos em 18 de abril de 1857, em Paris. Adotou o pseudônimo Allan Kardec a fim de diferenciar a obra espírita da produção pedagógica anteriormente publicada.


Em janeiro de 1858, Kardec lançou a Revue Spirite (Revista Espírita) e fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Em seguida, publicou O que é o Espiritismo (1859), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). Kardec faleceu em Paris, em 31 de março de 1869, aos 64 anos, em razão da ruptura de um aneurisma. Seu corpo está enterrado no cemitério Père Lachaise, na capital francesa. Seus amigos reuniram textos inéditos e anotações de Kardec no livro Obras Póstumas, que foi lançado em 1890.


Cronologia de Allan Kardec - Revista Reencarnação - Nº 417 FERGS

1804 Nasce Hippolyte Léon Denizard Rivail, em Lion França a 03 de outubro.


1815 Passa a estudar no Instituto de Educação fundado em Iverdun, Suiça, pelo famoso pedagogo Pestalozzi, considerado "a escola modelo da Europa". Ali é exposto a um método avançado de pedagogia, libertário e moralizador, que, embora sem o apoio da atual psicologia do conhecimento, intuitivamente ia na direção da tend6encia moderna, a qual leva a criança a ser o agente do seu próprio aprendizado. É um ambiente em que convivem diversas culturas, nacionalidades e religiões. Além de cumprir o programa de instrução regular, é muito provável que tenha feito os estudos superiores da instituição, que visavam a formar professores.

1819 Pela sua competência passa a auxiliar os mestres, colaborando nas atividades docentes.

1820 Influenciado pelas idéias de Pestalozzi (cristão que não aceitava os dogmas e que considerava a moralidade a verdadeira religião), testemunha dos conflitos gerados por diferenças de credo, no Instituto, concebe o projeto de uma reforma religiosa, pela unificação dos cultos, assunto que o ocupará por muitos anos.

1822 Transfere-se para Paris

1823 Primeiro livro didático: "Curso Prático e Teórico de Aritmética". Revela desde já, a vocação para a investigação cientifica de fenômenos paranormais: inicia seus estudos do Magnetismo Animal, então em grande voga. Este interesse se prolongaria por 35 anos.

1825 Funda e passa a dirigir uma "Escola de Primeiro Grau". A concessão de licença correspondente significa o reconhecimento dos seus títulos acadêmicos.
Inicio formal de uma carreira caracterizada pela busca de técnicas que valorizassem a iniciativa e a participação do aluno, através da motivação. E por uma impressionante amplitude de conhecimentos (lecionou todas as disciplinas cientificas, da classificação positivista da sua época, a única exceção sendo a Sociologia, área que no entanto, viria a desenvolver quando da Codificação do Espiritismo) .

1826 Funda a "Instituição Rivail", um instituto técnico moldado em Iverdun, em sociedade com um tio materno.

1834 Publica o "Plano proposto para a melhoria da educação pública", dirigido ao Parlamento Francês, no qual defende que a Pedagogia deve ter o tratamento de ciência e condena os castigos corporais. Curiosamente, revela o seu ceticismo, à época, em relação aos fenômenos espíritas, utilizando neste texto a crença nas "almas do outro mundo" como um símbolo de ignorância...

1830 Traduz, para o alemão, os três primeiros livros do "Telêmaco", de Fénelon.

1831 Publica a "Gramática Francesa Clássica de acordo com um novo plano". Escreve "Memória sobre a Instrução Pública", para a comissão que na ocasião foi instituída para reformar a educação. Defende maior liberdade para as escolas privadas e a valorização de formação moral nas instituições de ensino.
Ganha concurso promovido pela Academia de Ciências de Arrás,com sua "Memória a respeito da questão: Qual o Sistema de Estudos mais em Harmonia com as Necessidades da Época?".

1832 Casa-se com a professora primária, de letras e de belas artes, Amélie Gabrielle Boudet, cuja idade superava a dele por nove anos.

1834 Publicado "Discurso Pronunciado por Ocasião da Distribuição de Prêmios de 14 de Agosto de 1834". O tio sócio de Rivail, perdendo grandes quantias com sua paixão pelo jogo, termina por impossibilitar a continuidade do Instituto. Liquida-se a escola. A parte que cabe a Rivail, 45 mil francos, é entregue aos cuidados de um amigo intimo da sua família, negociante, que vem a falir. O futuro codificador vê-se, após nove anos de trabalho na área do ensino privado, voltando à estaca zero, sem um níquel no bolso. Emprega-se, como contabilista, em três casas comerciais. Mas continua, à noite, a elaborar obras didáticas, traduzir, e dar aulas em cursos privados de outros colegas

1835 Inaugura, em salão alugado por sua conta, e mantém por cinco anos, curso gratuito de diversas matérias, com ênfase nas ciências exatas, pelo qual passaram mais de 500 alunos sem recursos financeiros.

1838 É editado "Programa de Estudos Segundo o Plano de Instrução de H.-L.D. Rivail".

1843 Começa a dar aulas de Matemática e Astronomia em cursos públicos, duas vezes por semana, rotina que se prolongará por cinco anos.

1845 Rivail tem encenada a peça teatral "Uma Paixão de Salão", da qual é co-autor. Provável ano da publicação do seu "Curso de Cálculo Mental". Sai do prelo "Manual de Exames para os Certificados de Capacidade." Outro documento-sugestã o dirigido às autoridades da Educação: "Projeto de Reforma referente aos exames e educandários para mocinhas". É posto à disposição dos estudantes "Tratado de Aritmética".
Editado "Soluções dos Exercícios e Problemas do 'Tratado Completo de Aritmética de H.-L.D.Rivail' .

1848 Após o levante operário de Paris, grandes mudanças políticas, assinaladas pela eleição para a Presidência de Luis Napoleão Bonaparte, mais tarde ditador sob o titulo de Napoleão III. Neste período, pelo menos até 1860, instala-se legislação que dificulta a manutenção de instituições particulares de ensino que não estejam sob a proteção da Igreja. Rivail não voltaria a criar outros institutos nos moldes pestalozzianos. Publicado "Catecismo gramatical da língua francesa". Enquanto isto, nos Estados Unidos, na aldeia de Hydesville, no condado de Wayne, próximo a New York, a família Fox consegue estabelecer comunicação com um espírito desencarnado, através de um código convencionado de batidas, geradas pela entidade espiritual, nas paredes de madeira da sua habitação. Era o preambulo de uma "epidemia" de mediunidade de efeitos físicos, que se espalharia pelo mundo, só que as batidas, e outros fenômenos, se deslocariam das paredes para as mesas, mais apropriadas à reunião de pessoas em "corrente", nos salões das residências. É a moda das "mesas girantes ou dançantes".

1849 Vêm à luz "Ditados Normais dos Exames". Rivail é co-autor de "Gramática Normal dos Exames".

1850 É editado "Ditados da Primeira e da Segunda Idade".

1851 Começa a ditadura, com grande policiamento e restrição de liberdades junto às atividades de ensino. Desgostoso, Rivail se afasta ainda mais da sua vocação profissional, cessando todas as atividades pedagógicas.

1852 Gradual perda da visão (provável crise de "amaurose fugaz", uma espécie de problema circulatório) . Os médicos afirmam que ficará cego. Mas uma sonâmbula, em sono magnético, lhe tranqüiliza, afirmando ser mal passageiro. Efetivamente, em meses, recupera a saúde.

1853 Trabalha como contador na livraria religiosa de Pélagand e na folha católica "L'Univers" (empregos que mantém por quatro anos).As mesas girantes, a esta altura, já haviam invadido Paris.

1854 Fortier lhe fala das mesas extraordinárias. "'É conversa para dormir em pé" comenta o cético Rivail (que cria hipóteses dentro das leis físicas para explicar os fenômenos que lhe são descritos).

1855 Em maio, em casa da Sra. Plainemaison, por convite de seu amigo Carlotti, Rivail assiste, pela primeira vez, a uma sessão das mesas dançantes. Apesar do ceticismo, surpreende-se com as respostas inteligentes da "mesa". Constata a revelação de uma nova lei, que mereceria ser estudada a fundo. Passa a investigar metodicamente os fenômenos, primeiro ali, depois em outros grupos. Freqüenta a casa dos Baudin, onde encontraria, na mediunidade passiva das jovens filhas do casal, inicialmente através da "cesta-de-bico" (cestinha amarrada a um lápis), e depois na psicografia convencional, condições mais adequadas aos seus estudos. Apesar desta disposição favorável, no entanto, os contatos iniciais não conseguem entusiasmar Rivail, que, em meio a problemas de tempo, junto aos seus compromissos profissionais, quase deixa de comparecer às sessões. É ainda Carlotti que é seu incentivador. Deixa aos seus cuidados cerca de 50 cadernos, nos quais vinha anotando as comunicações mediúnicas obtidas pelo seu grupo, formado por intelectuais, entre eles o dramaturgo Victorien Sardou. Ali, nos últimos anos, os espíritos, pela mediunidade da Srta. Japhet, haviam vertido um conjunto de ditados filosóficos, abrangendo as mais sérias questões humanas. O Codificador imediatamente percebe a coerência e a relevância destes textos, que seriam o embrião da futura Doutrina Espirita. E renova seu animo naspesquisas, agora centradas na revisão e sistematização deste material, principalmente com a colaboração das meninas Baudin. Interessante observar que muitos dos princípios defendidos pelos benfeitores espirituais, como o da reencarnação, eram contrários às suas concepções filosóficas.
É a época, também, em que teve a oportunidade de conhecer a Daniel Dunglas Home, o qual o seduz pela supreendente mediunidade de efeitos físicos, bem como pelas qualidades humanas. Torna-se seu amigo, correspondente, e defensor, nas oportunidades em que o médium foi criticado em sua acidentada vida pública e pessoal.

1856 A 30 de abril, em casa do Sr. Roustan, a Srta. Japhet, utilizando-se da "cesta", transmite a primeira revelação da missão de Rivail. Revela-se, também, seu guia espiritual, O Espirito "Verdade".

1857 A 18 de abril, vem à luz a primeira edição de "O Livro dos Espíritos", financiada pelo próprio Rivail. Também é criado o pseudônimo famoso: Allan Kardec (nome de Rivail em antiga encarnação celta). A intenção inicial era permanecer, mesmo, anônimo, insulado. Mas logo o movimento formado a partir desta obra se avolumou a tal ponto, que ele foi guindado, malgrado a preferência pessoal, à sua liderança, ao seu posto principal, à vida pública, enfim.
Continua a assistir sessões de efeitos físicos.

1858 Funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (mais tarde também chamada "Sociedade de Estudos Espiritas de Paris", da qual exerceria a presidência até seu desencarne, embora sempre pondo o cargo à disposição dos associados). Lança "Instruções Práticas sobre as Manifestações Espiritas". Inicia a publicação da "Revista Espirita" (que manterá, sozinho, tanto no financiamento, como na redação, por 11 anos). Utiliza médiuns videntes para observar as mais diversas cenas sociais, no seu aspecto espiritual.

1859 Publicado "O Que é o Espiritismo? " Peça de Mozart, recebida mediunicamente, é executada na Sociedade de Estudos Espiritas de Paris. Críticos reconhecem o estilo do músico desencarnado. Experiências com "escrita direta" e com manifestações de pessoas vivas.Comunica aos leitores da "Revista Espirita" que a publicação fécha seu primeiro ano como um sucesso, com assinantes nos cinco continentes, garantindo a continuidade do empreendimento.
Crise na Sociedade de Estudos Espíritas de Paris. Pensa em sair e continuar seus trabalhos num nível mais informal. Espíritos e associados o dissuadem.

1860 Nova edição, revista e consideravelmente ampliada, de "O Livro dos Espíritos". Publica "Carta sobre o Espiritismo" . Adota, na Sociedade de Estudos Espiritas de Paris, o sistema de submeter mensagens a exame critico. Nas férias da Sociedade, inicia a prática de visitação às sociedades espiritas. Vai a Sens, Macon, Lion e Saint-Étienne. Primeiro contato com o Espiritismo de Lion, formado por operários, menos intelectual, mas mais centrado nas conseqüências morais da Doutrina. O codificador aprova, entusiasta.Passa a morar na nova sede da Sociedade (aquisição tornada possível pela doação de 10 mil francos), onde também está o escritório da "Revista". Com mais tempo para se dedicar ao esforço da Codificação, trabalha dia e noite.

1861 Lança "O Livro dos Médiuns". Queima de livros espiritas, na Espanha, por ordem do Santo Oficio: o famoso auto-de-fé de Barcelona, a 9 de outubro. Assiste, na Sociedade de Estudos Espiritas de Paris, a uma sessão de transporte de objetos .Nova visita a Lion, Sens e Macon. Viagem a Bordéus. A Sociedade de Estudos Espiritas inicia uma subscrição para ajudar operários com dificuldades financeiras.

1862 Recebe mensagem com centenas de assinaturas dos espiritas de Lion, que o emociona muito. Retorna a esta comunidade, e visita a mais de 20 localidades, por sete semanas, assistindo a mais de cinqüenta reuniões. Surpreende-se com o intenso crescimento do espiritismo em Bordéus e Lion. Nesta cidade, uma grande reunião com seiscentos delegados.També m viagem de estudo ao processo de obsessão coletiva em Morzine e ao fenômeno de "Poltergeist" em Albe.Precisa esclarecer, na "Revista", a denúncia de que suas viagens eram financiadas pela Sociedade (na verdade, ele as custeava). Inicia uma série de artigos, que se repetiriam por anos, ainda, em que se defende de acusações de utilizar o Espiritismo para enriquecer. Sua correspondência aumenta a tal ponto que se toma materialmente impossível dar-lhe vencimento. Responde aos temas propostos, coletivamente, na "Revista Espirita". De forma direta, seletivamente. E indireta, por secretário. Está recebendo, também, entre 1200 a 1500 visitas ao ano. Refuta livros e artigos nos jornais, contra o Espiritismo. Lança a obra "O Espiritismo na sua Expressão mais Simples", e "Resposta aos espiritas lioneses por ocasião do ano novo".

1863 Faz um balanço das comunicações mediúnicas já recebidas. Mais de3600 mensagens. Três mil com moralidade irretocável. Mas apenas 300 publicáveis. E somente cem têm um mérito que considera excepcional. Intensifica-se a campanha contrária à nova doutrina, principalmente no clero. É sugerido nos púlpitos que se queimem as obras espíritas. O Bispo de Argel proíbe aos seus fiéis a prática do Espiritismo. Kardec refuta sermões e livros de contra-propaganda de religiosos na "Revista".

1864 Viagem para estudar o vidente da Floresta de Zimmerwald, na Suíça. Investiga também casos de "poltergeist" em Poitiers. Visita aos espíritas de Bruxelas e Antuérpia, na Bélgica. A Sociedade Espírita de Bruxelas, homenageando o visitante, finda um leito de criança na creche de Saint Josse Tenuode. Os livros espíritas entram no Index na Igreja Católica, a primeiro de maio. Inicia-se novo processo de combate ao Espiritismo, na forma de cursos ministrados por religiosos. Kardec desaconselha a continuidade da polêmica com o clero, em nome da liberdade de opinião, afirmando que o Espiritismo quer ser aceito por livre exame, não por imposição ou violência.
Publica "Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo" .

1865 Edita "O Evangelho Segundo o Espiritismo" (edição definitiva da obra anterior), "O Céu e o Inferno" e "Coleção de Preces Espíritas".

1866 Num sonho, durante enfermidade, prevê, com 14 anos de antecedência, o invento de Dunlop, o pneu de borracha.

1867 Participa do livro "Ecos poéticos do além túmulo", com o texto "Estudo acerca da poesia medianimica" .

1868 Vêm a público "Caracteres da Revelação Espirita", e "A Gênese os milagres e as predições segundo o Espiritismo" . Assiste a uma sessão de transporte de flores, sem se convencer muito do resultado.

1869 Redação final de "Constituição do Espiritismo" (em que trata da sua sucessão). Faz uma estimativa dos espiritas, em todo o mundo: seis ou sete milhões.Quando está preparando uma nova mudança da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, ao atender um caixeiro de livraria, que viera buscar a "Revista Espirita", a 31 de março, cai pesadamente ao solo. Havia se lhe rompido um aneurisma . Desencarna de pé, trabalhando.


04 julho 2008

O culto cristão do lar



Povoara-se o firmamento de estrelas, dentro da noite prateada de luar, quando o Senhor, instalado provisoriamente em casa de Pedro, tomou os Sagrados Escritos e, como se quisesse imprimir novo rumo à conversação que se fizera improdutiva e menos edificante, falou com bondade:
— Simão, que faz o pescador quando se dirige para o mercado com os frutos de cada dia?
O apóstolo pensou alguns momentos e respondeu, hesitante:
— Mestre, naturalmente, escolhemos os peixes melhores. Ninguém compra os resíduos da pesca.
Jesus sorriu e perguntou, de novo:
— E o oleiro? que faz para atender à tarefa a que se propõe?
— Certamente, Senhor — redargüiu o pescador, intrigado —, modela o barro, imprimindo lhe a forma que deseja.
O Amigo Celeste, de olhar compassivo e fulgurante, insistiu:
— E como procede o carpinteiro para alcançar o trabalho que pretende?
O interlocutor, muito simples, informou sem vacilar:
— Lavrará a madeira, usará a enxó e o serrote, o martelo e o formão. De outro modo, não aperfeiçoará a peça bruta.
Calou-se Jesus, por alguns instantes, e aduziu:
— Assim, também, é o lar diante do mundo. O berço doméstico é a primeira escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o marceneiro não consegue fazer um barco sem afeiçoar a madeira aos seus propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranqüila sem que o lar se aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos.
Se não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações?Se nos não habituamos a amar o irmão pais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?
Jesus relanceou o olhar pela sala modesta, fez pequeno intervalo e continuou:
— Pedro, acendamos aqui, em torno de quantos nos procuram a assistência fraterna, uma claridade nova. A mesa de tua casa é o lar de teu pão. Nela, recebes do Senhor o alimento para cada dia. Por que não instalar, ao redor dela, a sementeira da felicidade e da paz na conversação e no pensamento? O Pai, que nos dá o trigo para o celeiro, através do solo, envia-nos a luz através do Céu. Se a claridade é a expansão dos raios que a constituem, a fartura começa no grão. Em razão disso, o Evangelho não foi iniciado sobre a multidão, mas, sim, no singelo domicílio dos pastores e dos animais. Simão Pedro fitou no Mestre os olhos humildes e lúcidos e, como não encontrasse palavras adequadas para explicar-se, murmurou, tímido:
— Mestre, seja feito como desejas.
Então Jesus, convidando os familiares do apóstolo à palestra edificante e à meditação elevada, desenrolou os escritos da sabedoria e abriu, na Terra, o primeiro culto cristão no lar.
(Livro: Jesus no lar, Francisco Candido Xavier)