28 maio 2007

O limite de cada um


O garoto olhava as gotas de chuva que batiam suavemente na janela.
Embora seu olhar estivesse fixo, sua mãe podia perceber que seu pensamento estava muito longe dali.
Aproximou-se do pequeno e, afagando seus cabelos, perguntou com doçura:
"Algum problema, meu filho?"
O menino aconchegou-se à mãe e sussurrou baixinho:
"Nada, não."
Embora a resposta negasse, a atitude dele demonstrava que algo não ia bem.
A mãe conhecia muito bem o seu rebento.
Sabia que alguma coisa o incomodava.
Abraçou-o com carinho e esperou que ele mesmo começasse a falar.
O fato de estar disponível e atenta a ele era uma motivação para que ele se abrisse espontaneamente.
Não tardou para que ele ficasse um tanto inquieto naquele abraço e dissesse à mãe, sem levantar os olhos:
"Não quero participar da apresentação do teatro este ano."
A mãe pegou-o pela mão e, sentando-se, colocou o pequenino no seu colo.
"Por que, meu filho?"
Amuado, ele escondeu o rosto no ombro materno, evitando a resposta.
"Você não acha que vai ser legal?" - insistiu a mãe.
Balançando a cabeça timidamente, ele respondeu:
"Eu acho, mas é que um dos meus colegas disse que eu nunca vou conseguir decorar todas as falas."
A mãe estreitou o menino nos braços e disse com ternura:
"E você, meu filho? Você concorda com ele? Você acredita que não é capaz de decorar as falas?"
Seu tom de voz era sereno.
O menino levantou os olhos e encontrou os da mãe que o fitavam carinhosamente.
"Sabe, durante sua vida, muitas pessoas vão tentar convencê-lo a respeito do que você pode ou não pode fazer.
Tentarão fazer acreditar que elas sabem mais de você do que você mesmo.
Dirão muitas coisas legais, e outras muito chatas.
Na maior parte das vezes, essas pessoas poderão estar fazendo isso por inveja, por ciúme, ou por simples ignorância.
Elas não têm como saber tudo, nem como conhecer tanto os outros.
Muitos apenas falam por falar, ou para magoar.
O importante, meu filho, é que você tenha a capacidade de não se influenciar por essas palavras.
Se elas são certas, ou não, somente você poderá dizer.
O seu limite apenas você é capaz de estabelecer.
Você, somente você, pode dizer aonde seu trabalho e seu esforço poderão lhe fazer chegar."
Os olhos do garoto estavam cheios de lágrimas, emocionado pela confiança que foi transmitida.
Beijou suavemente o rosto da mãe e agradeceu sorrindo pela mensagem que haveria de ficar para sempre gravada em seu coração.
* * *
A mídia nos indica os padrões em voga.
Ídolos passageiros ditam modas e jargões.
Todos, de repente, consideram-se legitimados a julgar os outros e apontar os seus destinos.
No entanto, segue essa onda desatinada apenas quem quer.
Quem não se dá ao trabalho de refletir e de manter-se firme em suas convicções pode ser arrastado por essas sandices.
Mas esse não é o caso de quem conhece a si mesmo e traça seus próprios objetivos.
Esses últimos estabelecem seus próprios limites e perseguem seus sonhos com garra e determinação.
Suas fragilidades poderão ser motivo de mais empenho e dedicação, mas nunca serão fatores impeditivos impostos por terceiros.
Cada qual é responsável por seus próprios erros e acertos.
É nisso que reside o mérito de cada ser.

Equipe de Redação do Momento Espírita.

27 maio 2007

AS MINHAS MUITAS ATIVIDADES


Constantemente encontramos pessoas indispostas e queixosas, diante dos compromissos que assumiram espontaneamente, ou que tiveram que assumir, premidas pela necessidade.
Muitas delas, tornadas infelizes, passam a não fazer bem feito o que têm aos seus cuidados, sob mil alegações, tais como:
"Não ganho para isso..."
"Ninguém me dá valor..."
"Estou estressado com tantas coisas..."
"Enquanto me acabo, há outros que não fazem nada...". E outras alegações, que apenas ampliam dificuldades.
É verdade que vemos mães e pais de família sobrecarregados diante dos deveres domésticos que lhes pesam.
Os compromissos de cuidar do lar, da família e da profissão, ao mesmo tempo, provocam desgastes e cansaço, indiscutivelmente.
No entanto, partindo-se do princípio de que Deus não concede um fardo maior do que as forças de quem o vai conduzir, como estabelece a voz popular, constatamos que os aborrecimentos são injustificados.
Concebendo-se a perfeição das Leis Divinas em tudo, também esse rol de atividades e de lutas está sob o foco dessa Divina Perfeição.
Por outro lado, a adoção das reclamações e do mau humor permanente não solucionará os problemas, nem diminuirá os deveres à frente deles. Antes, ampliará as torturas sob as quais a pessoa alega viver.
Você pode escolher: fazer o que tem que fazer com raiva, má vontade, e tornar seu dia terrível.
Ou, fazer o que você tem que fazer conservando a calma, a paciência, e buscando nessas atividades algo que lhe ensine sobre a vida.
Você ainda pode verificar se realmente não está trabalhando demais, cansando-se demais, em virtude de querer ter mais coisas, de desejar manter um padrão de vida econômico e financeiro melhor.
Se for por isso, a reclamação é indevida. A situação só depende de você para ser resolvida.
Se você é compelido a essas múltiplas atividades, porque elas são vitais para o equilíbrio social da família, da sua vida; se não há modo de alterar esse quadro, sem graves prejuízos, para você e os seus, então, você está em meio a vicissitudes importantes para o reequilíbrio geral, perante as Leis de Deus.
Se a sua jornada múltipla atende a necessidades intransponíveis, seja numa fase da sua vida ou seja durante toda a vida terrena, pense na importância disso para o seu reajustamento espiritual.
Pense na sementeira abençoada para o próximo futuro.
Veja, por outro lado, que você trabalha muito agora, sim, e censura os que nada ou muito pouco fazem, no campo dos seus conhecimentos.
Avalie que esta situação que essas pessoas vivem hoje em dia, de modo displicente, cria para elas a necessidade do reacerto com as Leis Eternas, no porvir.
A diferença entre elas e você é que você já se encontra em franco processo de reajustamento, respondendo pela má utilização do tempo em épocas passadas.

* * *
Faça tudo com alegria íntima, porque você está em rota de libertação.
O que lhe dói não é o trabalho em si, pois o trabalho é Lei de Deus.
O que o atormenta é o preço do resgate, caracterizado pela indiferença do mundo para com a sua luta particular.
Da próxima vez que você pensar e lamentar a respeito de suas muitas atividades, lembre-se disso: o trabalho é oportunidade maravilhosa de crescimento interior.

Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no cap. 23 do livro Para uso diário, do Espírito Joanes, psicografia de José Raul Teixeira, ed. Fráter.

04 maio 2007

AS CHUVAS DOS OLHOS

"Chove.
Na fonte das águas, chove.
Na fronte das lágrimas do pretérito calado.
Lavando a chuva dos olhos cansados.
Chovendo nos mares, nos mares amados."

Há quanto tempo você não chora?
Há quanto tempo seus olhos não são inundados por lágrimas, por estas pequenas gotas que parecem nascer em nosso coração? Há quanto tempo?
Assim como o fenômeno natural da precipitação atmosférica, a chuva, realiza o trabalho de purificar a terra, a água e o ar, também nossas lágrimas têm tal função.
A de limpar nosso íntimo, a de externar nossas emoções, sejam elas de alegria ou de pesar.
Precisamos aprender a expressar nossos sentimentos.
Nossa cultura possui conceitos arraigados, como o de que "homem não chora", ou que "é feio chorar", que surgem em nossas vidas desde quando crianças, na educação familiar, e acabam por internalizarem-se em nossa alma, continuando a apresentar manifestações na vida adulta.
Sejamos homens ou mulheres na Terra, saibamos que todos rumamos para a busca da sensibilidade, do autodescobrimento, e da expressão de nossos sentimentos.
Tudo que deixarmos guardado virá à tona, cedo ou tarde.
Se forem bons os sentimentos contidos, estaremos perdendo uma oportunidade valiosa de trazê-los ao mundo, melhorando nossas relações com o próximo e conosco mesmo.
Se forem sentimentos desequilibrados, estaremos perdendo a chance de encará-los, de analisá-los, e de tomar providências para que possam ser erradicados de nosso interior.
As barreiras que nos impedem de nos emocionar, de chorar, são muitas vezes as mesmas que nos fazem pessoas fechadas e retraídas.
Barreiras que carecemos romper, para que nossos dias possam ser mais leves, mais limpos, como a atmosfera que recebe a água da chuva, e nela encontra sua purificação.
As chuvas dos olhos fazem um bem muito grande.
Desabafar, colocar para fora o que angustia nosso íntimo, ou o que lhe dá alegria, é um exercício precioso. Um hábito salutar.
Dizer a alguém o quanto o amamos, quando este sentimento surgir em nosso coração - mesmo sem um motivo especial -, será sempre uma forma de fortalecimento de laços.
De construção de uma união mais feliz, e principalmente, um recurso para elevarmos nossa auto-estima, nosso auto-amor.

* * *

Deus nos concedeu a chuva para regar os campos, para tornar mais puro o ar.
Também nos presenteou com as lágrimas, para que as nossas paisagens íntimas pudessem ser regadas, e para que os ares do Espírito encontrassem a pureza.

Texto da Redação do Momento Espírita.